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O décimo-terceiro número do Sopro está no ar com o verbete Fetiche, do Severo Sarduy, traduzido pelo meu amigo Rodrigo Lopes de Barros Oliveira, uma análise da performance do ERRO Grupo feita por Fábio Salvatti, e os verbetes Intrusos e Negatividade, escritos pelos amigos do Flanagens. O site do Sopro foi incrementado e agora é possível visualizar os números dem Flash. A visualização nesta linguagem torna o panfleto mais próximo à sua versão impressa, além de permitir efeitos interessantes, como o de virar a página, o de aproximar o texto, etc. Para usar o zoom, basta clicar na página desejada, ativando o modo tela cheia, e aproximar ou diminuir o texto usando a barra de rolagem do mouse. No modo full-screen, um pequeno menu aparecerá no canto superior direito, onde é possível passar à página anterior ou à seguinte. Além disso, todos os verbetes publicados estão disponíveis em formato .html, compondo nosso dicionário crítico. 

Aos que se interessarem pelo texto de Fábio Salvatti e/ou pelo ERRO Grupo, recomendo também a leitura deste texto do Victor da Rosa

No número anterior do Sopro (12), publicamos um texto de Slavoj Zizek sobre a falsa simetria entre Nazismo e Stalinismo, e mais recentemente Hugo Albuquerque também escreveu sobre o assunto.   

Quem traduziu o texto do Zizek foi Rodrigo Cássio, responsável pelo que considero as melhores análises de cinema na blogosfera. Vale a pena conferir, por exemplo, esta leitura de Tarantino

Por fim, vale lembrar que amanhã tem a discussão de Extinção do Paulo Arantes, aqui no blog.


mundo-abrigo

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Minha companheira de vida e trabalho, Flávia Cera, acaba de inaugurar seu blog, o mundo-abrigo, hospedado no Cultura e Barbárie, que agora contabiliza 4 blogs. Nem preciso dizer o quanto desejo o sucesso e a vida longa de Flávia na blogosfera, não porque ela seja metade de mim ou vice-versa, mas porque um multiplica o outro. Não somos um - cada um é dois. O "mundo-abrigo" é uma definição do amor.


No final do ano passado, a Folha de S. Paulo organizou um debate sobre os 50 anos do caderno Ilustrada. Uma questão, atravessada pela melancolia, dominou: como fazer que o jornalismo cultural volte a "pautar" a cena e o debate artísticos? A explicação mais convincente para o declínio do suposto papel de protagonista da cultura do jornal, foi a de Marcos Nobre, que argumentou que este se voltou ao mercado para poder fugir à tensão entre academia e imprensa. Por mais que teoricamente o argumento pareça fazer sentido, uma olhadela rápida no Ilustrada dos últimos meses mostra que não há tanto distanciamento quanto parece. Dois exemplos. Quando da palestra de Antonio Candido, intelectual de referência para a esquerda brasileira durante a ditadura militar, para o lançamento de um volume de correspondências de Mário de Andrade, a Folha cobriu o evento. Mas Candido não disse nada de importante, se limitou a anedotas. E o jornal as reproduziu, dois dias depois, no dia 27 de maio desse ano, como se tratasse de algo monumental, com direito a narrar a dificuldade de subir ao palco do acadêmico. No mesmo Ilustrada, dois meses antes, quando do lançamento de Leite Derramado de Chico Buarque, foi publicada uma resenha de tamanho desproporcional para o caderno, de Roberto Schwarz em que ele analisa o romance com as mesmas categorias com que analisou Machado de Assis a partir da década de 1970 e 1980, justamente o auge do jornal. Os mesmos intelectuais de referência do jornalismo cultural paulista continuam tendo espaço. E talvez esse seja o problema. O problema não é que o jornalismo cultural não promova mais o debate, não produza mais efeitos; o problema é que a arte, entendida pelas categorias das décadas passadas, não produz mais efeitos. É evidente que a notícia da palestra de Antônio Cândido sobre um livro de Mário de Andrade ou uma resenha de Schwarz em que ele compara Chico a Machado não produzirão efeitos. É este sistema do grande autor, do grande intelectual, da grande obra que não funciona mais. Outro exemplo: o rodapé literário e as resenhas, que seguem o padrão do jornal e, portanto, devem  classificar a qualidade do livro, dificilmente dão alguma indicação diferente do bom ou ótimo. Sabendo do mercado editorial brasileiro pelo Ilustrada, tem se um panorama excelente, quando a verdade é outra; cada vez são publicadas mais porcarias. Provavelmente, nenhum dos livros classificados como ótimo mudará a vida de alguém ou pautará debate duradouro.

Sylvia Colombo tentou defender o caderno: argumentou que, entre outras coisas, o Ilustrada cunhou o termo Bienal do Vazio, liderando a discussão nesse ponto e "debate a prisão da jovem pichadora e, mais ainda, promove este amplo debate sobre si própria, sua história e perspectivas". Ora, ao debater a prisão da pichadora, isto é, ao centrar-se na polêmica, o jornal revela a sua incapacidade de compreender "novas" manifestações artísticas ("novas" com muitas aspas, porque elas datam da "era de ouro" do caderno), como as performances e os happenings: as categorias com que lêem a cena cultural são (e possivelmente sempre foram) obsoletas. Cobrir a prisão da pichadora e debatê-la não faz do Ilustrada uma frente no debate cultural. No máximo o credencia como o Cidade Alerta da cultura - aliás, outro exemplo da incapacidade conceitual do caderno de ler o país: para os ilustrados, é apenas lixo. E o lixo não interessa. Interessa o "crítico literário mais célebre do país", não importa o que diga.

P.S.:  Não há nada tão ruim que não possa piorar. A situação cá na província é muito pior: não são as categorias inadequadas que regem; vige o silenciamento mesmo. Silenciamento da imprensa (e dos atores culturais em geral) tão arraigado que impossibilita a publicação de um texto como este, que se "limita" a apontá-lo.


Dia do Juízo (I)

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(Começo a publicar aqui, às sextas-feiras, os fragmentos que compõem a pequena novela que comecei a escrever, coincidentemente ou não, à mesma época em que parei de publicar aqui no blog - entre agosto e janeiro passados. Nunca concluí o texto; aliás, quando voltei a escrever no blog, não consegui mais escrever a novela. Talvez unindo as duas coisas consiga levar o Dia do Juízo a cabo.)

Tiros. Todo dia, àquela mesma hora, já não mais madrugada, mas ainda não manhã, os militares praticavam no campo de treino vizinho a seu prédio. Como sempre, acordou com os estampidos. A televisão continuava ligada no mesmo canal, que noticiava agora a prisão de um motorista aparentemente fora de si. Abafado pelo relato da repórter, não se podia ouvir o que o policial dizia para conter o homem careca e forte, que berrava incessante e guturalmente. O movimento dos lábios, porém, deixava claro o que a voz emudecida pela edição da matéria ocultava: Pára ou eu te apago!

Acendeu um cigarro enquanto olhava a pilha de processos que se avolumava sobre a mesa de jantar. Precisava trabalhar. O telefone tocou. Mas não podia. Mais uma vez o telefone. Precisava antes organizar a dispersão do mundo. Tocou. Tocou. Não atendeu. Não tinha mais tempo para isso. Apagou o cigarro. Absorto, tentou recordar-se do tempo.



O pressuposto que ampara a idéia de que a corrupção é uma via de mão única é certa antropologia pessimista que nos assola desde os primórdios da colonização e que teve talvez sua melhor condensação no hoje esquecido Retrato do Brasil, de Paulo Prado (à época, 1928, um best seller), livro que foi desmontado, ponto a ponto, por Oswaldo Costa no seu "Moquém", coluna que mantinha na Revista de Antropofagia. Provavelmente o ensinamento mais marcante que eu recebi nos meus anos de graduação em Direito foi a enunciação - irônica - deste pressuposto por uma filósofa do Direito odiada pela maioria dos alunos (que, sintomaticamente, preferem homenagear um desembargador aposentado que "provava" que filosofia do Direito não servia pra nada a partir da brilhante constatação de que não existiam Escritórios de Causas Filosóficas...): "no Brasil, não existe presunção de inocência: aqui, todo mundo é corrupto até prova em contrário". É possível aventar, ainda que fosse preciso uma investigação de estilo frankfurtiano pra comprovar, que tal concepção nasce na elite colonizadora (é o argumento de Oswaldo Costa, e temos que lembrar que Paulo Prado pertence ao equivalente dessa elite no século XX): é assim que ela via a "massa" de desterrados, índios, negros e mestiços que aqui habitavam, projetando neles a própria culpa. De algum modo - que, novamente, só uma investigação aprofundada poderia demonstrar como - esta concepção de que aqui é o Mal, ou o abandono de Deus que vige (o Novo Mundo sempre foi encarado de forma ambivalente, tanto como Paraíso, quanto como Inferno), se espalhou por todo o corpo social (é provável que as camadas sociais intermediárias e as dominadas tenham percebido que riqueza e posição social pressupõem jogar o jogo do Diabo, para ficar na metáfora). Hoje, é impossível apontar e criticar alguma irregularidade, algum chamado "desvio ético", sem que alguém retruque que "ninguém é santo", ou insinue que você também apronta lá das suas. É por isso que o "mensalão" adquiriu tamanha importância mediática (e, nesse sentido, foi o verdadeiro erro histórico do PT, talvez mais que a capitulação ao neoliberalismo): ele veio confirmar esta antropologia pessimista, provou que todos dançam com o Diabo. O "mensalão" teve o efeito psicológico de livrar da culpa setores que espoliam a Nação e a Viúva há séculos e que, em transe pela catarse produzida pelos "aloprados", assumiram publicamente esta culpa, que agora podiam estender, sem medo, a toda a sociedade: "Eles, que tanto nos criticavam, são iguais a nós". Como disse, o outro lado da moeda desta concepção negativa do brasileiro como corrupto nato é a projeção da culpa no Estado. Se existe meia dúzias de fraudes no Bolsa-Família ou nos assentamentos de terra, é melhor acabar de uma vez com o renda mínima e a reforma agrária. Se o currículo Lattes da Dilma Rousseff tem dados falsos e o portal de currículos do CNPq abriga um currículo forjado do Galvão Bueno (dois no universo de um milhão), é preciso criar mecanismos de controle e não punir os estelionatários. Quando todo mundo é corrupto por princípio, então todo mundo tem que arcar com os crimes cometidos pelos poucos corruptos de fato.


O Incomparável

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Meu último post acabou criando uma pequena polêmica, que me fez pensar um bocado de coisas. A grande vantagem do debate é que ela força os interlocutores a repensar seus argumentos; no que o debate escrito é ainda mais proveitoso, pois eles tem tempo pra fazê-lo com certo tempo. Devido à extensão que minha resposta tomou e pelo caráter mais genérico de algumas coisas que argumento, me permito fazê-la aqui na forma de post e não na caixa de comentários. O debate suscitado me provocou ainda outra reflexão mais conceitual, que espero publicar aqui no blog em breve.

Antes de tudo, é preciso não esquecer da ambiguidade da máxima "Não se pode comparar" que se revela no Incomparável. Aquilo que não pode ser comparado, o Incomparável, o é justamente na medida em que superou, pela comparação a tudo ou a todos. Quando dizemos que tal obra ou pessoa é incomparável, estamos dizendo que ela está um patamar acima das demais, que ela é um monumento, que ela, em suma, é intocável (tem o "corpo fechado"). A máxima, portanto, pode ter como conseqüência a monumentalização, o fechamento de toda e qualquer coisa ou pessoa, o que corresponde, a meu ver, a atomização mais extremada. O sentido político disso fica claro pra mim numa propaganda: Coca-cola, Viva as diferenças.

Na "verdade verdadeira", eu não pretendi defender a comparação em si (ainda que não a condene - tendo briga, estou dentro: assim, não tenho problema algum em dizer que Macunaíma, de Mário de Andrade, é infinitamente melhor que Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, juntos - o que não implica, de modo algum que eu jogue os últimos na lata de lixo; escolhi fazer e fiz minha dissertação mais sobre Oswald que sobre Mário). O que eu "quis dizer" é que, por vezes, usa-se da máxima "Não se pode comparar" para negar o caráter hipertextual que o mundo possui (característica que fica mais explícita na cultura, ou melhor, no que entendemos por "artes"). A linguagem "não passa" de infinitas referências tanto ao "mundo" e/ou ao "real" quanto a si mesma. Isto sempre foi e sempre será desde a antropogênese. O "mundo" não vira uma grande rede a partir da internet - esta apenas explicita um dado intrínseco, o de que a linguagem (a cultura) é uma sucessão de comentários a um grande livro não escrito que chamamos de "mundo" (ou de "real"). 

Dito isso, eu entendo que o "Não se pode comparar", quando referido à diferença de linguagens entre o cinema e a literatura, possa ter uma função didática (ainda que acredite - e esse será o tema de outro post que a discussão me provocou - que desde o "momento" em que se percebe que a escrita é um desenho sui generis, pois auto-referencial, tal diferença fica clara, ainda que não seja expressa tão explicitamente), é preciso tomar cuidado para não atravessar a fronteira onde o didatismo se converte em autoritarismo: é preciso, antes de enunciar a "verdade", saber se o interlocutor não a conhece.

Para explicar, vamos aos fatos. O que motivou o post abaixo foram diversas discussões que se assemelham, não pelos conteúdos, mas pelo uso da máxima por parte de meus interlocutores. Tentei condensá-los no exemplo mais recente de conversas que tentei travar a partir de um filme. Sempre que dizia - e é importante notar que o poder dos significantes é sempre superior ao dos significados, daí o furo da teoria habermasiana da ação comunicativa - que os dois contos de Machado de Assis em que Júlio Bressane dizia (explicitamente) ter se inspirado para fazer o filme eram infinitamente melhores que este, ouvia como resposta a máxima. Ainda tive tempo de sugerir que o filme era uma banalização monotemática de um motivo, descontextualizado, tanto na forma, quanto no conteúdo, dos contos: o caráter obsessivo-compulsivo dos personagens. Fui censurado pela máxima e não pude desenvolver o raciocínio, o que faço aqui. Não só Bressane "entrega o jogo" logo de cara - em A causa secreta, um dos contos, ficamos o conto inteiro querendo saber o misterioso porquê do comportamente obsessivo-compulsivo de um dos personagens para nos frustarmos ao final, que não revela causa qualquer, pois ela é, de fato, secreta, o que quer dizer, infundada (o que Machado põe em cena é o modo como a autoridade, a aura, se fundamenta tão-somente no segredo sobre o seu (não)fundamento) -, já que fica óbvio, desde o começo do filme, que o comportamento obsessivo-compulsivo dos dois personagens não tem causa, sendo o objeto de desejo substituído a 3 por 4, como também, o diretor não extrai os efeitos dessa inversão formal (é o ritmo do filme, e não uma antecipação narrativa do conteúdo que deixa claro no início do filme o que só transparece no final do conto). Os dois personagens obsessivo-compulsivos de A erva do rato não tem, desde sempre, aura. Mas Bressane não trabalha em cima deste seu caráter profano. É pura rotina - ou seja, repetição. Nada "acontece", mas tampouco este não acontecer é explorado. Antes, resvala pro que o cinema brasileiro "tem de melhor": melhor pelada a torto e a direito. E também para o riso. Se, no conto de Machado, o que está em jogo é o processo de fetichização (ou reificação) - o comportamento obsessivo-compulsivo é mórbido e sádico, ele vai coisificando o objeto de desejo -, no filme de Bressane, estamos diante do fetiche pronto, acabado e embalado para o consumo (fica óbvio que, depois da morte da parceira que fotografava nua de todos os ângulos, o personagem interpretado por Selton Mello iria dar um jeito de continuar com seu comportamento, o que acaba fazendo fotografando o esqueleto da morta - obviedade ou explicitude que também não é explorada). A pura medialidade não alcança seu potencial crítico - não ultrapassa a esfera do entretenimento. 

Pra arrematar, uma curiosidade, que resume tudo: quando perguntei a meus interlocutores se haviam lido os contos do Machado (e não foi no mesmo dia da exibição do filme), a resposta foi negativa. Se se tratam de linguagens diferentes como argumentavam, a leitura dos contos só ressaltaria isso. É comparando que se pode chegar à conclusão de que não se pode comparar. Usar a máxima para escamotear uma referência hipertextual explícita do autor (no caso, direto) seria o mesmo (na verdade, seria pior) que eu me negar a ver o filme por já ter lido os contos - o que não fiz. Meus interlocutores viram o filme e se negaram (pois, para fazê-lo bastava vontade: com acesso a internet e quinze minutos de leitura, estaria tudo resolvido) a ler os contos. Se o que fiz (i.e., seguir uma referência) é uma com-paração, prefiro ser um comparatista doente a insistir, como um mantra que um produto cultural produz seu sentido sozinho.

Atualização (5/7/2009): Pra ter uma visão diferente (e fundamentada) de A erva do rato, vale ler os comentários de Jair Fonseca a este artigo (o artigo em si é um malabarismo só, consegue ver amor (?!?!) no filme, realmente uma proeza).


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"Não se pode comparar" - é a máxima quando o que se quer proteger é a autonomia de uma obra. Não é contra a comparação que este argumento se volta, é contra qualquer exterioridade: um mecanismo de imunização. Não se pode mencionar outra linguagem que não a do "suporte", não se pode trazer à tona outro momento histórico, mesmo quando é a obra que o requer, não se pode cruzar poetas, mesmo quando um deles cita o outro. Se você fala prum estudante de cinema - ou prum cinéfilo, dá na mesma - que o filme de certo diretor não passa de uma banalização monotemática dos contos de um escritor consagrado nos quais o próprio diretor diz que se inspirou (e mesmo que o próprio diretor ressalte isso em todas as exibições públicas e que a menção aos contos compareça em todas as sinopses, até nas mais curtas), o estudante/cinéfilo te responderá que "Não se pode comparar as duas linguagens" - um argumento que, inconscientemente ou não, é de uma autoridade brutal e visa a infantilização, pois desde pelo menos a alfabetização qualquer um percebe a diferença entre uma imagem de TV e a página de um livro. "Não se pode comparar" é, na verdade, de um eufemismo pra "cada macaco no seu galho", que, por sua vez, quer dizer: há mercado para todos e não venha mexer no meu peixe.

(Um exemplo contrário a esta lógica que a confirma por sua excepcionalidade é o Vistos e escritos, melhor blog "sobre cinema" que conheço. A sua leitura dos filmes de Tarantino é, também, a melhor que já vi. Arte e crítica não são competições olímpicas, mas também não são Jogos Abertos).


Sopro 12

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Os dois totalitarismos (publicado originalmente no London Review of Books), de Slavoj Zizek (em tradução de Rodrigo Cássio), é o artigo de debate do n.12 do Sopro. Completa a edição uma resenha, escrita por este blogueiro, de As estrelas descem à Terra, livro de Theodor Adorno. 

Atualização (04 de julho de 2009): Agora é possível visualizar os números do Sopro em Flash. A visualização nesta linguagem torna o panfleto mais próximo à sua versão impressa, além de permitir efeitos interessantes, como o de virar a página, o de aproximar o texto, etc. Para usar o zoom, basta clicar na página desejada, ativando o modo tela cheia, e aproximar ou diminuir o texto usando a barra de rolagem do mouse. No modo full-screen, um pequeno menu aparecerá no canto superior direito, onde é possível passar à página anterior ou à seguinte.   

Atualização (08 de julho de 2009): Sobre o mesmo tema do artigo de Zizek, a falsa simetria entre Nazismo e Stalinismo, vale a pena conferir este texto n´O Descurvo.


Obs.: este post foi atualizado às 20:22 de 29 de junho, com o trecho "Felicidade".

Miscigenação
Logo na chegada aos seus grandes centros urbanos, como a Paulicéia, se descobre que o Brasil não é só uma democracia racial, mas também uma pujante democracia social. Homens de classe média baixa fazem piadas machistas, enquanto um morador de rua dorme na mesma calçada, uma estudante uniformizada caminha para casa vinda do colégio particular, um engravatado com pasta de couro chama um táxi e universitários do Mackenzie fazem um churrasco na calçada do prédio da USP na Rua Maria Antônia. Tudo num raio de dez metros. Tudo sob o sol escaldante do meio dia. Tudo ao mesmo tempo sem que ninguém se incomode ou se sinta incomodado pelos demais. É compreensível que isto se dê na cidade abrigo do tucanato, mas imperdoável que se repita - como de fato se repete - em cidades como Porto Alegre ou Belo Horizonte, governadas tanto tempo pelo PT.

Arquivo
Os arquivos brasileiros se regem por uma máxima: neles não estão armazenados documentos que esperam a intervenção do pesquisador para escaparem do esquecimento, mas sim documentos que já estão esquecidos, independente de quem (e se alguém) os leia. No Brasil há, de fato, um "mal de arquivo": os arquivos encadernam jornais furando o texto, permitem que os textos se apaguem, disponibilizam ao pesquisador, junto aos documentos, recomendações de uso interno sobre uma microfilmagem jamais realizada. Ao resgatar do esquecimento um documento armazenado em arquivos brasileiros, o pesquisador leva como saber supremo o de que o passado que resgatou já está irremediavelmente perdido.

Felicidade
No Memorial da Resistência, há uma sala escura - uma das antigas celas do DEOPS -, com bancos e fones de ouvido. Neles, se pode ouvir depoimentos de presos políticos que passaram por ali. Talvez o momento mais bonito dos relatos seja quando um deles fala que, apesar da dureza nada branda da situação, havia certa disposição à alegria dos que estavam ali. Mas a beleza do relato não está aí, o que faria dele tão perverso quanto A vida é bela, mas na explicação que dá para isso: se os presos que ali estavam não fossem pessoas dispostas à alegria, nem estariam ali - eles estavam ali justamente porque queriam ser felizes - ou melhor, explica o depoimento, eles estavam ali justamente porque queriam que todos pudessem ser felizes. Não conheço definição melhor de democracia - ou comunismo: a possibilidade de todos serem felizes.

Livros
No último dia de Paulicéia, esqueço dois livros recém comprados no balcão de um café. No ônibus que me leva para outro estado, não consigo parar de me culpar pelo esquecimento. Minha companheira, a certa altura, me consola: pode ser que quem encontre os livros tenha a vida completamente transformada pela sua leitura. Passamos a noite em claro imaginando os caminhos tomados pelos livros e pelas vidas reconfiguradas por eles. Chegamos ao nosso destino cansados, mas aliviados. Muitas horas antes, ainda na Paulicéia, os dois livros, com capas de papelão confeccionados por catadores, já haviam chegado ao seu destino, que, no caso, era também a sua origem: a lata de lixo. Os livros, como os homens, não tem Destino.

Post-scriptum
Como se depreende deste "Diário", estive viajando para São Paulo, onde fui muito bem recebido pelos amigos Pádua Fernandes e Fabio Weintraub, aos quais agradeço muito pela atenção, pelo carinho, pela hospitalidade - pela amizade. Em seguida, fui a Dourados, junto com colegas de pós-graduação, participar de um congresso e conhecer o Idelber Avelar, bem como reencontrar o velho amigo Rodrigo. Por isso, peço desculpas por não ter respondido aos comentários feitos aqui no blog, bem como por não tê-lo atualizado. Agora, ele deve voltar ao ritmo normal. O debate sobre o Extinção, livro de Paulo Arantes, continua marcado para o dia 15 de julho.


Qualquer um que tenha acompanhado minimamente (lendo esporadicamente um suplemente cultural dos jornalões já é o suficiente) os debates das ciências humanas da segunda metade do século XX, sabe que tão (ou mais) importante que o "fato em si" é a construção discursiva que se faz dele, o seu relato. Mais perigoso que o revisionismo do passado (e intimamente ligado a ele), é o revisionismo do presente: a narração do presente é que irá pros arquivos, físicos e virtuais, contando nossa história (ou a história dos nossos discursos, melhor dizendo). Nesse sentido, tão (ou mais) importante que o enunciado (o que é dito, o que é comunicado), é a forma da enunciação (como se comunica o que se comunica). "O meio é a mensagem", para usar a frase célebre de Marshall McLuhan. 

Dois exemplos recentes, extraídos do jornalão que leio até expirar minha assinatura, a Folha de S. Paulo:

1) Hugo Albuquerque cantou bem a bola ao argumentar que, diante da assimetria dos confrontos entre estudantes e PM na USP, falar em "pancadaria" ou "confronto" é, no mínimo, de um cinismo atroz. E, de fato, a FSP teve como manchete do dia 10 desse mês: "Policiais e alunos entram em confronto na USP". Mas, mesmo ali onde a assimetria é narrada, a forma com que é narrada transmite simetria: o primeiro parágrafo da reportagem diz: "Uma manifestação de funcionários e estudantes de USP, Unesp e Unicamp acabou em confronto com a Polícia Militar ontem à tarde, no campus Butantã da USP (zona oeste). PMs usaram bombas de efeito moral, balas de borracha e cassetetes. Os alunos, pedras e tijolos." Do jeito que o texto está construído, com o uso do contraponto (Os policias, isso; os estudantes, aquilo) cria-se a aparência de uma equivalência. Ou seja, os policiais usaram suas armas no confronto, e os estudantes, as suas - como se fossem equivalentes. O correto seria não expor o tal "confronto" na forma deste contraponto; mas daí seria pedir mais. Todavia, não seria desrespeito a esse tal de "pluralismo" que os jornalões pregam colocar no texto, ali depois de "Os alunos," um "apenas". No dia seguinte, o mesmo discurso: no texto que tinha como título "Após confronto, cresce oposição à reitoria", encontramos a mesma forma de narrar como simétrica a assimetria: "Segundo os professores, Vilela é responsável pelo que chamaram de 'ação violenta da PM no campus', que incluiu o uso de bombas de efeito moral, balas de borracha e cassetetes. Do lado dos manifestantes, registraram-se agressões aos PMs com pedras e xingamentos." Aqui, a perversidade com que o discurso construído é ainda maior: a PM usa suas armas, os estudantes agridem a PM com as suas, entre elas o grito. É evidente que, numa situação como a dos protestos na USP, a agressão verbal não está no mesmo nível que um cassetete. Contudo, narrada desse modo, é como se estivesse.

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2) No editorial desta terça, 16, "Mérito comprovado", a FSP rasga elogios ao ProUni, de fato um bom programa. Fala do bom desempenho dos estudantes do programa e - aqui que entra a charada -  do seu baixo custo: no meio do texto, entre as suas duas colunas, um gráfico compara o custo anual por aluno do ProUni e das Universidades Públicas. O texto não faz nenhuma menção a tal comparação, mas nessa omissão diz tudo: os R$1800,00 do aluno do ProUni comparados, de modo "neutro", aos 13mil e poucos reais do estudante das universidades públicas dizem, sem dizer (i.e., pela forma em que não é dito) que estas jogam dinheiro do contribuinte no esgoto. O que o editorial não diz faz toda a diferença: grana em pesquisa, extensão, bibliotecas, diferença dos salários dos professores e servidos, etc etc etc.


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes

Twitter:
@alexnodari


Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa


Dia do Juízo

é uma ficção publicada aqui no blog às sextas-feiras.

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  • Paulo Moreira comentou no post O estado da arte do jornalismo: Benjamin dizia num comentário não me lembro em que texto que o jornal justapõe tantas notícias completamente díspares numa página porque ele dedica-se acima de tudo a expor "fatos" que são devidamente esquecidos no virar para a próxima página. A imprensa, em outras palavras, serve tipicamente mais ao esquecimento que reflexão crítica à memória. Ela
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  • Cristina comentou no post "Raposa política": Concordo com a maioria dos comentarios sobre o JKB, mas lamento profundamente que este Estado seja tão conservador. A briga, relembrando o que foi colocado, pelo governo do Estado será travada pela direita. Não dá pra não achar que além dos equívocos do coronel também não tenham ocorrido erros estratégicos da esquerda, que por sua vez, não demonstr
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