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“Misturar desejo com história”
por Flávia Cera

Se fosse possível sintetizar em uma expressão o livro Uma Fome, de Leandro Sarmatz, essa que dá título à resenha talvez fosse a mais apropriada. E, o fato de ela estar no conto Barra da Tijuca, manhã do dia 5 de junho, em que “um cara com PhD em estudos culturais” é convidado para escrever o roteiro de um programa especial de natal para a televisão, marca-a como um sintoma do nosso tempo em que academia e televisão quase se confundem, assim como ficção e realidade, passado e presente. Se, por um lado, não temos um reduto que nos garanta qualquer estabilidade, por outro, temos o desafio, não menos estimulante, de não ter fronteiras, de podermos transitar livremente por aqui e por ali.

Uma fome
de Leandro Sarmatz
Rio de Janeiro: Record, 2010
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O esporte ou o espelho do espetáculo
por Victor da Rosa

Le sport et les hommes (traduzido para o espanhol em 2008, por Núria Petit Fontseré, em publicação da Paidós - edição em que se baseia esta resenha), curioso texto sobre exatamente cinco esportes – tourada, automobilismo, ciclismo, hockey e futebol, nesta ordem –, escrito exclusivamente para um documentário de Hubert Aquin, deve ser lido como uma espécie de continuação do projeto crítico já presente em Mitologias

Del deporte y los hombres
de Roland Barthes
Tradução para o espanhol de Núria Petit Fontseré
Buenos Aires: Paidós, 2008
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Do espetáculo sem desculpas

por Flávia Cera

A crueldade das narrações de Veronica Stigger já é conhecida do público desde Gran Cabaret Demenzial e O trágico e outras comédias. Em Os anões, lançado recentemente em uma linda edição da Cosac Naify, não é diferente. Essa crueldade, como ressalta Mario Bellatin na quarta capa, longe de parecer gratuita, parece necessária. Veronica assume o papel da “escritora má” que leva às últimas conseqüências algo que poderia ter passado despercebido.

Os anões
de Veronica Stigger
São Paulo, Cosac Naify, 2010
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Genealogia bastarda de Veronica Stigger
por Alexandre Nodari


Entretanto, como boa bastarda, Verônica Stigger não herdou de Machado a sensação de no way out que reside nele. Ao contrário, aprofundando o efeito de absurdo objetivo dos relatos de Kafka, ela aprofunda também a esperança que existe neles.

Os anões
de Veronica Stigger
São Paulo, Cosac Naify, 2010
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Um réquiem para a escrita?
por Alexandre Nodari

O ocaso da escrita seria o sintoma de um ocaso maior, a decadência de todo um modo de pensar e agir, a decadência da “história” e mesmo da “política”. Pois se, para Flusser, a escrita seria política porque se dirige ao outro, precisa do outro, o código digital, por sua vez, seria despolitizado porque se dirige à máquina, utilizando a forma da “prescrição” (a forma do “se... então”), mas destituído de valores – totalmente funcional (uma norma que se limita a programar uma máquina a fazer algo)

A escrita
Há futuro para a escrita?
de Vilém Flusser
Tradução de Murilo Jardelino da Costa
São Paulo, Annablume (Col. Comunicações), 2010

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Um corpo do tamanho do mundo
por Flávia Cera

Emanuele Coccia, jovem filósofo italiano, vem desenvolvendo, uma leitura fundamental sobre a imagem, que altera radicalmente a compreensão de uma série de pressupostos que perseveraram por muito tempo. Em A vida sensível, publicado pela editora Cultura e Barbárie, Coccia apresenta uma reflexão contundente (que supera, evidentemente, as fronteiras da filosofia e alcança a psicanálise, a antropologia) sobre uma física do sensível e uma antropologia da imagem, deslocando o sensível do psíquico, colocando-o em um fora absoluto e afirmando que o que difere o homem não é a racionalidade, mas uma especial relação com as imagens.

A vida sensível
de Emanuele Coccia
(Tradução de Diego Cervelin)
Desterro, Cultura e Barbárie (Col. PARRHESIA), 2010
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Piratas
por Alexandre Nodari

A compreensão do que está implicado na palavra pirata é uma tarefa urgente e necessária não só pelo seu uso cada vez mais indiscriminado para se referir a quem compartilha dados, informações e arquivos protegidos por direitos autorais, mas também porque ajuda a elucidar o estatuto “jurídico” dos chamados “combatentes ilegais”, excluídos tanto do direito da guerra (e suas inúmeras convenções), quanto do direito penal. É o que demonstra o mais recente livro de Daniel Heller-Roazen.

The Enemy of All
Piracy and the Law of Nations
de Daniel Heller-Roazen
Nova Iorque, Zone Books, 2009
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Um para cem? 99 poemas de Brossa
por Pádua Fernandes

O poeta e historiador Ronald Polito já nos deu, do catalão Joan Brossa (1919-1998), os Poemas Civis, traduzidos com Sérgio Alcides, e Sumário Astral e outros poemas. 99 poemas, com traduções apenas de Polito, e organizado e selecionado por ele e Victor da Rosa, inicia-se com uma breve apresentação escrita pelo segundo organizador que pode ser resumida às frases finais: “90 anos de vida, 10 anos de morte, 99 poemas. É quase magia. São coisas que, afinal, só podemos aprender com Brossa.”

99 Poemas
de Joan Brossa (Tradução de Ronald Polito)
Seleção de Ronald Polito e Victor da Rosa
São Paulo, Annablume (Selo Demônio Negro), 2009
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As assinaturas de uma política que vem
por Vinícius Honesko

Talvez a fama recente e repentina alcançada por Agamben nos últimos tempos aqui no Brasil – principalmente por ocasião da publicação das traduções de seus livros – possa ensejar uma dispensa de apresentações. Porém, não compreendemos sua trajetória intelectual e tampouco sua estratégia de pensamento se não nos ativermos a um detalhe: Agamben não tem como formação primeira a filosofia, mas sim o direito. Ele próprio afirma, em entrevista concedida a Roman Herzog, que depois de ter concluído seus estudos em direito pensou que os havia abandonado para sempre. No entanto, assume que a lógica férrea do direito, sobretudo a do direito romano, é algo que jamais alguém pode abandonar por completo e que, justamente por isso, o acompanha até hoje.

Signatura rerum
Sul metodo
de Giorgio Agamben
Turim, Bollati Boringhieri, 2008
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Ler estrelas
por Alexandre Nodari

Causa espanto o fato de alguns apressados frankfurtianos brasileiros se utilizarem da valoração negativa da indústria cultural para desprezar a priori os produtos da cultura de massas como objetos de análise. Isso não só porque Walter Benjamin, integrante da tradição a que se filiam, via nesses produtos uma função ambivalente (...), mas também – e principalmente – porque mesmo Theodor Adorno, do núcleo “mais duro” do Instituto de Pesquisa Social, considerava essencial a reflexão sobre as miudezas do cotidiano (o que inclui, evidentemente os produtos dos mass media) para compreender o funcionamento do capitalismo tardio.
As estrelas descem à Terra
A coluna de astrologia do Los Angeles Times:
um estudo sobre superstição secundária

de Theodor W. Adorno (Tradução de Pedro Rocha de Oliveira)
São Paulo, UNESP (Col. Adorno), 2008
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O Borges de Bioy Casares
por Paulo da Luz Moreira

Borges é um calhamaço póstumo, de mais de 1600 páginas, de Adolfo Bioy Casares (1914-1999) com todas as entradas dos seus diários em que se menciona o amigo Jorge Luis Borges (1899-1986). Em geral são descrições de inúmeras conversas que marcaram a amizade dos dois escritores argentinos. As menções a Borges começam quando o autor era um jovem de 17 anos e Borges, já com 32, era já um escritor respeitado na Argentina, e terminam cinqüenta e oito anos depois, três após a morte de Borges na Suíça.

Borges
de Adolfo Bioy Casares
Barcelona, Destino, 2006
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O espetáculo da barbárie: fotografia, tortura e lynching
por Sílvia Regina Lorenso Castro

As fotografias tiradas durantes os lynchings mostram não apenas os corpos em chamas, degolados, cortados, mas pessoas fazendo poses, sorrindo e orgulhosas por participarem de um ato que visa mostar aos negros o que pode acontecer se “eles não souberem o seu devido lugar.” Mais assustador ainda é o fato de que muitas dessas fotos foram transformadas em cartões-postais, enviados àqueles que não puderam comparecer ao espetáculo da barbárie.
Whitout Sanctuary
lynching photography in America
de James Allen, Hilton Als, John Lewis e Leon Litwack
Santa Fe, Twin Palm Publishers, 2000
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Milagre e multidão
por Leonardo D'Ávila de Oliveira

A articulação do intelecto em geral fora das relações de trabalho assalariado significa possibilitar a ação em esfera pública não-estatal.

Na recente tradução, feita por Paulo Andrade Lemos, de “Virtuosismo e Revolução” de Paolo Virno - título lançado pela coleção “Política no Império” da editora Civilização Brasileira -, o leitor se depara com um pensamento sobre a relação entre ação política e os meios materiais de produção. Um pensamento que deve muito a Marx sem, no entanto, pretender-se dialético.
Virtuosismo e revolução
a idéia de ‘mundo’ entre a experiência sensível e a esfera pública
de Paolo Virno (Tradução de Paulo Andrade Lemos)
Rio de Janeiro, Civilização Brasileira (Col. Política no Império), 2008
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O precipitar da imaginação
por Leonardo D'Ávila de Oliveira

A tradução do pouco conhecido Tratado da Magia de Giordano Bruno demonstra que
mesmo em um mundo em que houvesse algum paralelo entre as palavras e as coisas,
a linguagem seria inexata e a comunicação impotente. (...) Por mais que o saber não seja pensado separado do mundo, como no binômio sujeito-objeto, existiriam afinidades, semelhanças e simpatias (ou antipatias) que demonstram oposições naturais. Além disso, a linguagem chega a ser diretamente posta à prova quando o pensador avalia a incapacidade das línguas conseguirem passar alguma plenitude de sentido, principalmente se comparadas com as mensagens e enigmas divinos que são obtidos, por exemplo, nos sonhos.

Tratado da Magia
de Giordano Bruno (Introdução, tradução e notas de Rui Tavares)
São Paulo, Martins Editora, 2008
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Um jagunço de posse da eletricidade
por Alexandre Nodari

“La Historia es mera exterioridad de la ficción”. Tal sentença, verdadeiro “objecto gritante” que encontramos em Crítica Acéfala recapitula – no duplo sentido de cumprimento e abolição – o percurso crítico de seu autor, Raúl Antelo. (...) Ou seja, a história – a História universal da infâmia – não pode ser prevista porque ela é exterioridade de uma exterioridade (a ficção). A leitura não prevê porque não há o que ser previsto. Ou melhor, porque a linguagem não serve para prever. A história só se repete como farsa; a literatura, como paródia. Em ambos, nos encontramos diante de um novo gesto humano, de um novo gesto de linguagem. E cada novo gesto re-presenta um recomeço, um nascimento, como diria Hannah Arendt - e uma chance de felicidade
Crítica Acéfala
de Raúl Antelo
Buenos Aires, Editora Grumo (Coleção Materiales), 2008
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é um panfleto político-cultural, publicado pela editora Cultura e Barbárie: http://www.culturaebarbarie.org
De periodicidade quinzenal, está na rede desde janeiro de 2009.
Editores: Alexandre Nodari e Flávia Cera.